Pouco tempo atrás, em um dos meus grupos de whatsapp, uma senhora resolveu me dizer como eu deveria escrever as minhas mensagens.
Disse que achava que eu estava simplesmente cometendo um erro, até perceber que eu escrevia ‘todes’ de forma intencional.
Enviou algumas palavras escritas inteiramente em letras maiúsculas - o que interpretei que talvez ela não soubesse que esse é o código para gritar através da mensagem.
Ou talvez soubesse, porque acabou apagando.
Mas deixou:
“Na língua portuguesa não existe “todes”! Isto nos agride. Solicito que a senhora use o oficial “TODOS”.”
Antes de comentar o conteúdo da mensagem dela, eu quero perguntar pra você se você já conduziu um grupo de whatsapp ou telegram ou algo equivalente.
Eu sei que algumas pessoas que vão ler este post têm ou já tiveram essa experiência.
Aos que não tiveram, deixa eu contar pra você que não é tão ‘moleza’ quanto parece.
É um investimento de energia constante.
É um cuidado.
É verificar o tempo todo até onde pode contar com o bom senso e até onde precisa colocar limites.
É trabalho.
É como manter uma sala em que você recebe pessoas que você ainda vai conhecer. Só que uma sala virtual.
E se a pessoa foi convidada para frequentar a casa de alguém… as regras da casa são do anfitrião. Não são?
Mas ela resolveu se sentir agredida na minha sala, com algo que não tinha absolutamente a ver com ela.
Eu respondi que no grupo não havia agressão, apenas inclusão. Disse que ela era muito bem vinda, que cada um pode ter o seu ponto de vista…
E ela respondeu “Não concordo. Agride a “língua”! E todos os que a respeitam!”
(Eu não sei por que ela colocou “língua” assim, entre aspas, se ela ama tanto o português.)
Por fim acabou saindo do grupo. Porque preferiu continuar escolhendo se sentir agredida? Talvez. Não sei.
Um fato inegável é: se o português não fosse mutante, ainda estaríamos escrevendo mussarela, e não muçarela.
Ainda estaríamos nos chamando de vossa mercê.
Vossa Mercê > Vossemecê > Vosmecê > Vancê > Você
E eu sei escrever em português.
Nos meus tempos de escola, minhas notas em gramática variavam entre 8,5 e 10. (Eu fiquei chateada quando tirei um 7,5 no colegial.)
E, ainda assim, você vai encontrar pelo menos 4 formas como eu cometo “erros” recorrentes de português nos meus textos.
Este texto é sobre isso.
Este texto vai esclarecer alguns enigmas.
Vai responder algumas perguntas que você talvez se faça quando lê o que eu escrevo (Tipo: esses textos são só para mulheres?)
E você vai entender por que eu - intencionalmente - resolvo ignorar a professora de português de vez em quando.
Pode ser que você concorde com o que vai ver.
Pode ser que não.
Todos os pontos de vista são bem vindos aqui nesta sala.
I.
A primeira forma como eu cometo erros de português nos meus textos é a única forma em que os erros são erros de verdade.
Porque eu sou humana.
O único ser humano que não comete erros fazendo é aquele que não faz.
Mas daí, erra por não estar fazendo o que veio fazer no mundo.
Eu cometo erros nos textos porque eu faço os textos.
Como muitas pessoas hoje, eu poderia simplesmente pedir para a IA (inteligência artificial) escrever por mim. Com português correto e tal.
Mas isso implica em 3 fatos que vão de encontro aos meus valores. E que eu acho que você vai apreciar:
1.A gente sabe que fazer atividades como palavras cruzadas são benéficas para manter o cérebro em forma. E evitar ou adiar doenças degenerativas cada vez mais comuns.
Isso é porque um cérebro ativo é um cérebro bem exercitado. E, como tudo em nosso corpo, se exercitado de uma forma apropriada, vai se manter saudável por mais tempo.
Quando eu mesma escrevo meus textos, contribuo para manter meu cérebro ativo.
Quando você lê meus textos, em contraste com gastar tempo assistindo videozinhos no feed, você contribui para manter o seu cérebro ativo.
2. Estamos assistindo a revolução tecnológica se desenrolar com a mesma (falta de) consciência da revolução industrial: sem considerar o valor da vida e do meio ambiente.
Falta desenvolvimento até que o uso constante da IA não seja um projeto suicida, tanto em termos do uso de água, quanto em termos éticos.
É difícil se manter no mercado sem abraçar essa nova tecnologia. Mas devemos fazer isso com consciência e parcimônia.
Se eu posso fazer, não é a IA que vai fazer por mim.
3. Talvez a mais importante entre nós: a integridade da comunicação.
Quando você abre e lê um texto meu, você está lendo um texto meu.
Não copiei um texto da IA fingindo que era eu quem escreveu.
Desde que o chat gpt começou a ser usado, eu me descadastrei de dezenas de listas de email.
“Se você não dedicou seu tempo pra escrever, não vale o meu tempo para ler.”
Nosso tempo é valioso. Não tem como comprar tempo de volta.
Eu respeito seu tempo. O que você receber de mim vai valer a pena ler.
Estamos aqui para criar um Novo Mundo. Juntas.
Por tudo isso, pode esperar que os erros por ser humana vão estar presentes. E está tudo bem.
II.
A segunda forma de “erros” nos meus textos é a questão do gênero.
Em português claro: nossa língua é machista.
Você pode ser uma mulher entrando sozinha em uma sala e ser recepcionada com um “bem vindo”.
Você entrou sozinha! Só tem você. Mulher.
Mas a língua permite que você seja recepcionada com “bem vindo”, porque esse é o português correto e tal.
No português correto, está tudo bem a mulher não ser vista.
Igualzinho a esse mundo machista “normal”.
Mas eu cansei de um mundo assim. E desse “normal” que não é Natural.
Como mais de 90% das pessoas que leem meus textos são mulheres, eu logo falo com você no feminino.
Aqui você é bem vinda.
Se você é homem, está tudo bem você ler meus textos. Você também é bem vindo.
E bem vindes são todes. Uma fluidez com a língua que reflete a revolução que as pessoas nascidas no terceiro milênio estão trazendo:
Muitos jovens nem se identificam como mulher, nem como homem.
E eu acho que esse é um passo muito importante para a consciência da igualdade de gênero.
Porque não importa se você é homem ou mulher. Importa que você é pessoa.
E todas as pessoas devem ter o direito de serem vistas e tratadas com respeito.
Estamos nessa transição. E o meio da transição é sempre bagunçado.